Moacyr Scliar comenta o livro de Otavio Frias Filho. Em Queda Livre – Ensaios de Risco, o diretor da Folha de S. Paulo conta como viveu algumas experiências transcendentes Moacyr Scliar Como assinala um recente artigo no New York Times Book Review, um novo gênero está surgindo nos Estados Unidos, em meio a muita discussão: é a “creative nonfiction”, a não-ficção literária. Já existem vários livros sobre o tema, várias antologias, alguns periódicos, inclusive online. Mas o que é, afinal, a não-ficção criativa? Para fins práticos, não-ficção deve ser considerada sinônimo de jornalismo. O que não deixa de ser uma redundância; afinal, o jornalismo, com sua constante busca de objetividade, parece ser a própria antítese da ficção. Mas esta objetividade também supõe a ausência de qualquer interferência pessoal do autor. Pergunta: como conciliar jornalismo com a literatura de autor? Esta era a questão enfrentada pelo chamado novo jornalismo, introduzido nos anos sessenta e que teve como expoente mais conhecido Tom Wolfe. A presença do autor nos textos traduzia-se não apenas na opinião pessoal, como também no estilo, que se aproximava da ficção: contar uma história, enfatizando o papel do personagem, ou personagens, passava a ser preocupação fundamental. Mas o novo jornalismo também não era tão novo assim; já estava presente, de alguma maneira, nos textos de Defoe, de Mark Twain, de Mencken, de Hemingway. E, se considerarmos que a melhor forma para esse gênero era (e é) a do ensaio, então podemos associar à lista de nomes o de Montaigne. No Brasil a crônica (Machado e Lima Barreto são exemplos) desempenhou o mesmo papel. Agora surge, lançada pela Companhia das Letras, uma magnífica coleção de textos:
Queda Livre: Ensaios de Risco. O autor é ninguém menos que
Otavio Frias Filho, responsável, desde 1984, pela redação da Folha de S. Paulo. Como jornalista, mas não apenas como jornalista, Otavio viveu uma série de experiências transcendentes (daí o termo “risco”, que não deve ser interpretado como significando apenas perigo físico). Estas experiências deram origem aos sete ensaios, cada um deles primoroso não apenas do ponto de vista estilístico, como também pela insólita, e enriquecedora, visão que introduz. Isto fica evidente logo no primeiro texto,
Queda Livre. Nele, Otavio Frias Filho fala de uma aventura inusitada, ao menos entre intelectuais: a história de seu salto em pára-quedas. Claro que se trata de algo emocionante, uma excitante matéria jornalística. Mas Otavio Frias Filho vai além. Sim, fala-nos do pára-quedismo (inclusive do ponto de vista histórico), e conta detalhes do salto, mas aborda o significado emocional, e até espiritual, dessa jornada, numa linguagem que é, antes de mais nada, literária. Descrevendo a distorção das noções de espaço e de tempo que então se experimenta, Otavio Frias Filho compara esta deformação aos “reflexos num espelho de trem-fantasma”. Notem a força desta metáfora, que remete a uma sensação aterrorizante da infância, a viagem no trem-fantasma, aquela brincadeira de parque de diversões na qual um vagonete entra num túnel escuro, onde a todo instante aparecem surpresas assustadoras, aí incluído o próprio reflexo no espelho. Infância e idade adulta, terror na horizontal, terror na vertical: homologias poderosas, evocadas em umas poucas palavras. Os ensaios que seguem continuam na linha da experiência-limite: uma viagem à região do Santo Daime, na floresta amazônica; a vida num submarino; a experiência de palco (Otavio Frias Filho é, recordemos, autor teatral); a caminhada a Santiago de Compostela, a excursão ao submundo da transgressão sexual. E o livro termina com um clímax. Porque, se o primeiro ensaio falou sobre a queda, o último terá como título
O Abismo, fechando, portanto, o círculo. E de que abismo fala-nos o autor? Do Grande Abismo, do definitivo abismo que é a morte, mais especificamente da morte por suicídio. Começa evocando lembranças da infância, o choque que é a descoberta da finitude, as fantasias em torno ao tema. A alusão a Freud é inevitável, mas o autor cita também aquele que é o mais existencial dos escritores modernos, Dostoievski. Aí intervém o jornalista; não se trata de abordar o tema em abstrato, porque isto em imprensa não tem sentido. A pergunta, portanto, se impõe: o que fazer, diante deste problema? E vem a resposta. Otavio Frias Filho fala-nos do Centro de Valorização da Vida (CVV), começando por descrever a trajetória do reverendo Chad Varah, pioneiro nesta área e fundador do movimento dos Samaritanos, precursor dos CVV. Finalmente, descreve sua própria atividade como voluntário do CVV, transformando o relato numa vívida expressão de jornalismo, mais que investigativo, participante. Ao final, Otavio Frias Filho resume as experiências pelas quais passou: “Havia ampliado minhas faculdades para sentir e compreender, desafiado meus pesadelos inconfessáveis e me achava agora um pouco mais à vontade dentro de mim mesmo”. Cita então a divisa de Emerson, I must be myself. Um grande lema para a não-ficção criativa, para o jornalismo e para a vida em geral.